Nao sei bem como sao cartas de despedida, porque, confesso, nunca li uma. Nao sei nem em quais situaçoes elas se encaixam. Nao sei se só tenho o direito de redigi-la se estiver na beirada do pulo pro céu, ou se o céu for só um aviao que me leve embora por 3 meses ou 30 anos. Nao sei o que posso ou nao te dizer. O que devo. Ou o que, com certeza, tenho a obrigaçao de camuflar entre palavras doces que ostentem o nosso tempo de vidas cruzadas e apague todo o atrito e consequente desgaste decorrente nela.
Desde já, aviso que a despedida realmente há de ser da boca pra fora. Acredito que nao tenha como dizer adeus pra quem dorme e acorda no meio dos pensamentos da gente; pra quem vive na estante como uma coroa guardada ou um livro de capa verde. Mesmo sendo a autora do ato, nao sei como uma peça com desejo (certamente) impossivel possa vir a se apresentar. Nao desejo palco. Tampouco espectador. Nao desejo nem o adeus, mas sei a necessidade de faze-lo nascer.
Saiba, entao, que despedidas nao sao tao duras quando se realmente há de partir. Nao sao tao crueis quando há mudança dando as maos pro que sobra. E é acreditando fielmente nisso que sinto o coraçao se despedaçar em mil: nao haverá mudanças; tudo ficará intacto, do jeito que deixasse quando a porta fechou. Até tua presença continuará em casa. Tua bagunça, que a partir de hoje eu faço questao de nao arrumar mais. Tua braveza e teus gritos, que prendi com janelas fechadas. Aqui dentro, tudo vai continuar igual. Aqui, dentro de casa e dentro de mim. De mim. Aí fora, onde ficas tu e os teus, já nao vai mais ter gritos instáveis, receitas azuis ou surtos inexplicáveis, porque eu já nao vou mais estar por perto. Mas ainda assim, vou cuidar de ti pra sempre, mesmo que só dentro de mim. Vou te curar a dor de cabeça, te fazer a sobremesa condizente com o clima, lavar tua roupa e puxar tuas orelhas, mas tudo de uma distância suficientemente grande pra que nao atrapalhe mais nada; pra que tu nem percebas mais a minha existência, até que um dia, nem lembre que eu existi.
Vou deixar as lembranças comigo, que faço delas cada vez melhores, e onde tenho certeza que nunca hão de se perder.
Vou deixar as tristezas no lixo, mas prometo também nunca levar o lixo pra fora, pra que algum dia eu aprenda com a dor.
Vou deixar a tua vida em paz, livre, feliz como comigo nao há de ser.
Vou deixar, aos poucos, que a alma anestesie e eu ja nao sinta mais o teu cabelo macio no meio dos meus dedos.
Vou deixar, meu amor.
Vou te deixar...