terça-feira, 27 de maio de 2008

a festa era dela.
arrumou-se com horas de antecedência. colocou com cuidado cada pulseira no braço esquerdo. pintou os olhos delicadamente, com precisão quase cirúrgica. contornou a parte superior num risco firme. alongou todos os cilios se-pa-ra-da-men-te, fio a fio. calçou os sapatos pretos de saltos altíssimos e bicos pontiagudos. entrou no vestido preto, mais justo que a própria justiça. deslizou o zíper para fechá-lo e acertou-o no corpo. a correntinha no pescoço levava um coraçao. ironicamente, um coraçao incrustado de diamantes (tao duros quanto o coraçao dela mesma).
duas gotas de dior no pescoço impregnaram o quarto todo com um cheiro doce e cruel. exatamente como ela se sentia. linda e fatal. mortal.
pegou a bolsa ja pronta que havia deixado sobre o criado-mudo, apanhou as chaves do carro e foi em direçao à festa.
ah, sim, a festa era sua. mas nao propriamente sua. na verdade, era como se fosse... ao menos ela a sentia assim.
chaves entregues ao manobrista, porque ela nao perdia a pose se acabando em balizas. confere o cabelo impecável e entra no salao lotado. procura algum rosto familiar, encontra vários que prefere dispensar. logo acha o dele, olhando pra ela pasmo, com a boca em ponto de baba. ignora por completo assim que percebe o beliscao de outra nele enquanto assiste à cena empapada de ciúme e ódio.
desfila até a mesa que lhe foi reservada, cheia de gente bonita com a qual nao se faz questao de socializar muito porque a beleza afeta o cérebro. e percebe novamente o rapaz a procurando com os olhos disfarçadamente.
resolve entao fazer o teste. levanta-se e vai em direçao ao banheiro, passando por ele bem devagar. ele estica a mao discretamente e da um leve cutucao. ela vira a cabeça e da uma piscadinha combinada com um sorriso contido. mas nao pára.
ele inventa alguma desculpa e em segundos está atrás dela.
- nossa, voce está linda!
- brigada... voce tá bonito também. estas festas deixam a gente com cara de gente mesmo, né.
- é... desconfortaveis, mas bonitos.
um silencio desconfortante de alguns segundos é interrompido por ele
- senti saudades suas...
- vi bem... qual o nome da saudade? joana? roberta?
- ah, voce sabe que é diferente, nao sabe? como você mesma cantava antes, depois de voce, os outros sao os outros e só...
o telefone dela toca. "oi. nao, nao estou ocupada nao. ah, jura? em meia hora estou aí."
- ainda bem que eu ja nao canto mais, nao é? - responde ela dirigindo-se à porta em busca do carro e de outro, que nao seria só mais um outro e só, deixando o passado por ali, confuso, como muitas vezes ja a havia deixado.

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