sábado, 14 de junho de 2008

o mundo caía lá fora, mas ela mal conseguia ouvir o som das gotas na janela por conta do fone com música bem alta. o fone, sim, porque passavam das 4 da manhã e as vizinhas idosas nao estavam de acordo com seu gosto musical. prezavam o sono. velhas!
ela nao se importava deitada no sofá, mudando de posiçao a cada meia hora e devorando histórias. os fones separavam o mundo de dentro do de fora como o muro de berlim.
a chuva engrossava e os raios lhe desviavam a atençao. um trovao chegou e destruiu tudo. 1989. o muro de berlim caiu.
ela se levantou e abriu as cortinas. tirou os fones, lógico. a música, agora alta, misturou-se com a chuva, que fazia o papel de percussão.
ignorou a sacada alagada. sentiu o frio nos pés e as gotas vindo em sua direçao. ignorou também as vizinhas e aumentou a música. todas as luzes da casa apagadas. da sua casa, porque nos prédios em frente havia nove apartamentos com tudo aceso. seis a mais que o de costume, no caso. medo da chuva, aposto!
ela pensou em mandar uma mensagem numa garrafa tentando estabelecer contato com alguma daquela gente, mas a agua que caía ainda nao era suficiente pra isso. lembrou do mar. sentiu saudade. pegou os fones de volta, mudou a música, aumentou ainda mais o volume e fechou os olhos com força.
acordou com o sol bem forte no rosto e um pedaço de papel úmido na mao. "se o vento traz a chuva, ele pode te trazer também. de qualquer lugar pra onde quiseres. me avisa que vou contigo."
em um daqueles prédios tinha, entao, uma janela aberta, uma cortina azul voando pra fora e uma pessoa, que depois de espiar tudo, sumiu dentro daquele apartamento.
ela ainda passa horas na sacada nos dias de chuva e ainda ve o espiao da cortina azul, mas preserva o direito de nao acabar com o encanto e continua observando tudo só da sacada mesmo.
guarda agora uma caixa de bilhetes úmidos.

0 comentários:

Postar um comentário

BlogBlogs.Com.Br